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  • Vitor Friary

O Ano que Passou não foi Perdido



Shakespeare é considerado um dos mais importantes escritores e poetas de todos os tempos, e nos disse muito tempo atrás que “doces são os usos da adversidade, que, como o sapo, feio e venenoso, leva joia preciosa na cabeça”. E concordo plenamente com o Willy que todo e qualquer sofrimento carrega dentro de si mesmo uma oportunidade de aprendizagem. Portanto, eu discordo que devemos deixar 2020 para trás com desprezo ou considerá-lo um ano perdido, já que podemos encontrar muitas reflexões importantes a partir do que vivemos.


Uma das importantes lições de 2020 foi que aprendemos que as pessoas mais importantes não são as celebridades, os jogadores de futebol famosos e polêmicos, ou os influencers da hora mas sim os profissionais de saúde, os atendentes dos mercados, os caminhoneiros, os fazendeiros, aqueles que não puderam como muitos de nós realizar o seu trabalho à distância, mas que se colocaram em risco para salvar vidas e manter vidas. Isso nos serviu como lição importante, porque aumentamos nossa empatia e gratidão por todos esses profissionais que de fato foram essenciais para a manutenção da nossa vida durante a crise do COVID-19.


Aprendemos que estamos todos no mesmo barco, e dinheiro e fama não impedem que sairemos ilesos às artimanhas invisíveis e ainda desconhecidas desse vírus ainda considerado letal. Segundo a Organização Mundial da Saúde foram mais 2.000.000 de vidas em todo o globo ceifadas por esse vírus, sendo mais de 189.000 somente no Brasil. Portanto ninguém está acima das forças da seleção natural.


Em um mundo cada vez mais tecnológico, onde problemas de uso excessivo de tela e dependências tecnológicas tem ficado cada vez mais em evidência, aprendemos em 2020 que a tecnologia tem o seu lado positivo também. Por conta dos avanços tecnológicos o mundo pode continuar a desempenhar a sua produção em muitos setores diversos. Percebemos que a conexão humana sensorial é uma necessidade, apesar de estarmos caminhando infelizmente para um mundo cada vez menos conectado fisicamente.


Por outro lado, em especial no contexto brasileiro, observamos com 2020 que culturalmente somos dominados por urgências, imediatismos, um consumismo psicótico, e uma dificuldade muito grande de respeitar e seguir as orientações da ciência e de seus especialistas, apesar de pesquisas reportarem que o uso de distanciamento social e uso de máscaras diminuem o risco de contaminação e espalhamento do vírus, o desrespeito por normas e orientações sanitárias foram constantemente burladas e negligenciadas. Portanto, aprendemos que temos muitas vulnerabilidades ainda presentes que parecem ser culturais, mas que não deixam de ser vulnerabilidades.


Simultaneamente, a crise de 2020 nos ensinou que podemos ser extremamente capazes de nos adaptar e de nos comportamos com flexibilidade face a adversidades. Dos atendimentos de saúde através de serviços renovados de tele-medicina às melhorias criativas de apresentação tanto no campo da educação quanto nas reuniões executivas de multi-nacionais importantes agora sendo realizadas sem o custo das viagens de longa distância. Sem dúvida, que muitas dessas melhorias continuaram em prática em anos por vir.


Percebemos com o isolamento imposto pelo mundo o quanto que o comportamento humano industrial impacta negativamente o meio ambiente, porque fomos testemunhas do quanto que a natureza se beneficiou com a nossa parada obrigatória. A redução da nossa velocidade fizeram rios se despoluirem, animais selvagens voltarem a dar notícias em ambientes supreendentes, lagos e canais voltaram dar lugar a peixes e a uma fauna exuberante em várias localizações pelo mundo.


Durante a pandemia também aprendemos a dar valor as pessoas importantes a nossa volta e aos momentos simples, como apreciando um pôr do sol na praia e uma caminhada ao ar livre. Ficamos tão presos dentro das nossas cabeças, pensando, remoendo o passando e preocupados sobre o futuro e planejando constantemente, que os momentos simples que carregam tanta energia e ternura passam por nós desapercebidos. A crise de 2020 nos ensinou a parar para apreciar o poder das coisas simples. Com a despedida de pessoas importantes para nós que foram infectadas pelo vírus e não resistiram, aprendemos que a vida não é para sempre e que uma oportunidade boa para amar e perdoar é aqui e agora, pois não levamos nada desse mundo a não ser a paz de que todos os nossos pesadelos foram perdoados e que podemos dizer adeus às mágoas e aos ressentimentos.


Esse ano que passou não foi perdido, aprendemos muitas coisas sobre o nosso comportamento, sobre a nossa psicologia, e portanto todo esse conhecimento é valioso. Absolutamente, como brasileiros temos que melhorar e muito o nosso leque de respostas a situações de crise como essa, mas também devemos nos orgulhar porque em muitos lugares e muitos contextos presenciamos uma força do bem que também se fez presente demonstrando que no fundo a humanidade prevalece e que ninguém solta a mão de ninguém.




Vitor Friary

Psicólogo Clínico, autor do "Baralho de Mindfulness e Compaixão" e “Superando a Procrastinação” e Fundador do Centro de Mindfulness no Brasil.

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